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O livro dos livros

Histórias e revisão de histórias, por Eliz B. 

05 setembro, 2012


Livrete dos anjos sujos

# xiv
. Uma carta fechada, com um volume macio pequeno e o nome dela no destinatário, os olhos aí concentrados. O encontro foi fortuito, estava entre a tralha que constituía a memorabilia de quem conseguiu sobreviver a mais de oito décadas, alegrias, desalentos, acidentes, doenças, festas, baptizados, casamentos, funerais e romarias, guerras, crises, oscilações nas bolsas, nos mercados, na cotação das moedas correntes, nas taxas de juro e, mais recentemente, no spread, regimes, governos, eleições disto e daquilo, nacionalizações, privatizações, viagens, marido, as amantes dele, os amantes dela, filhos, netos, telefonia, televisão, telefone, telemóvel, grafonola, giradiscos, leitor de compact discs, ipod, iphone, ipad, holocausto, apartheid, uma rusga da polícia no início dos anos setenta, experiências alucinogéneas, folhetos de promoções e publicidade e novidades gerais de que leu ou ouviu notícias. Apesar de desconhecer qual fosse o seu conteúdo, aquele envelope agarrado por ela parecia acumular história, sentimento e espanto. Sentiu uma tremura dentro da tremura que a idade lhe trouxe às mãos. Rasgou-o com cuidado, curiosidade de gato e a intenção de, caso viesse a encontrar algo revelador ou surpreendente, expiar o peso da viuvez naquele momento. Leu a denúncia contida na carta, poucas palavras, Malaquias Krunegård tem asas, sete de novembro de mil novecentos e cinquenta e um, uma pena amarelecida junto. Nada que, bela merda, ela não soubesse já, voltando a solidão e a certeza dos dias mesmos a carregá-la após aquele intervalo súbito. Tentou telefonar a um dos filhos, o segundo, o único entre os cinco que também tinha asas. O sinal de chamada soou uma, duas, três, quatro, cinco vezes, a ansiedade foi crescendo ao ritmo dos toques, até que ouviu uma voz a anunciar a chegada à caixa de mensagens. Acto contínuo, este palerma nunca atende quando é preciso, desligou.

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05 julho, 2012

O livro dos assentos avulsos

# i


E o que isso poderia ser?, não disse. Estava concentrada no contrato. Tinha-se desviado da cómoda, deambulava descalça enquanto lia. Tempos duros, como escreveu Dickens, como era o soalho. Talvez. Ela procurou-a sobre o ombro direito e com o movimento do torso sentiu que deixara o coração mais afastado dela. Que, não tens que sentir-te culpada, ainda deambulava descalça, somos só nós e o chão connosco.

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22 fevereiro, 2012

O livro das continuações

# xxxvii


Imagens soltas, sequências cortadas. A europa começa à hora de jantar, a dois. Quem é que está disposto a aceitar compromissos falsos ou a esperar? _______ Sim, meu general, berlin está a chamar, notícias do eixo. _____________________ Não se diz coragem, o sinal está fraco, diz-se vantagem. Ouço it’s too early for the circus, it’s too late for the bars (*) e concordo. Quase acredito outra vez no natal. Nada na manga. Isto não é um sonho. Se o trunfo é encarnado, aposto ____ forte, sangue, vinho caro, se necessário.

__________
(*) versos de “Saving all my love for yоu”, canção do álbum Heartattack and Vine (Asylum Records, 1980), de Tom Waits

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08 fevereiro, 2012


O livro das continuações

# xxxvi
.

Fui contra o aumento das propinas, manifestei-me, estive lá, na rua, parcela do organismo simultaneamente cobarde e temerário que é a multidão. Foi a primeira vez que vi as tuas mãos a tentarem proteger-me. Talvez quisesses apalpar-me, mas eu suspeitei no teu gesto uma intenção de protecção. Depois fomos felizes, demasiado felizes. Teríamos de deixar de ser, tu sabias, foste o primeiro a aperceber-se que a nossa felicidade haveria de terminar. Nunca mais escrevi a palavra felicidade ou a usei para ser sincera, para a dizer verdadeira. O empenho e a fadiga que ponho na continuação é a elisão da felicidade, agora memória, ideia apenas. O fim acompanha-me. Não necessito de gritar الله أكبر para avisar.

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25 janeiro, 2012


O livro das continuações

# xxxv
.

_______________ O corpo manipulado que sinto não é meu. Estou no corpo errado, nasci no corpo errado, errado e falso, que não é meu. Seria meu se assim, meu, o sentisse ou fosse capaz de sentir. Mais do que o cárcere, neste corpo sinto a rejeição, o uso e o abuso, a falta _____ de reconhecimento. A sensação de perda não é em relação ao que se tem, mas em relação ao que se pode ter. É por isso que ter é menos do que poder ter. A imitação e a inveja dinamizam os valores, as paixões e os interesses. Não quero ser uma personagem de Lynch ou falar alemão contigo. Já tive pesadelos com iguanas. Às vezes repito-os.

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11 janeiro, 2012

O livro das continuações

# xxxiv


Custa a acreditar, mas longe não é um lugar, é um sentido. Aponta-se um mapa como se aponta um espelho, à procura de reconhecimento. Neste caso encontrar é deparar com um reflexo, como se fosse a sombra devolvida ao acto da procura. Aqui, ali, transporte. Sucede que quando se deambula pode encontrar-se algo diferente do que aquilo que se procurava. O que não significa que a viagem tenha sido em vão. Mesmo a deambulação pode ser em proveito, continuação.

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28 dezembro, 2011

O livro das continuações

# xxxiii


Regras?, poucas. Primeira, incorporar o sofrimento para o assimilar, nunca estar para a salvação antes do trauma. Segunda, dar pouco atraso ao que dilacera, o mal deve estar próximo, a relação com ele deve ser imediata, as lâminas devem ser mantidas ao alcance. _______ Quem é que não gosta de cães?, como é que se pode confiar em quem não gosta de cães? Ou de drogas? _______ Terceira, ter um lugar, qualquer pessoa precisa de um lugar para sentir e dizer que lhe pertence. Quarta, a droga é sempre pouca, importa não fechar demasiado a boca. Quinta, aceitar a aspiração como uma questão de classe e dimensão, a quarta e a quinta, respectivamente. Sexta, encarar, enfrentar, olhos nos olhos, antes de se desistir. Sétima, desistir, reinaugurar o princípio, ter poucos princípios, continuar a ter poucos princípios.

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14 dezembro, 2011

O livro das continuações

# xxxii


Sinto-me atraída pela varanda, o efeito que ultrapassa o chão e o prolonga numa suspensão que acrescenta o edifício e dá-me pé além. Daqui, debruçada, imagino ainda a alfaia, uma charrua, o instrumento adequado para descobrir o que possa haver em mim e há. ______________ Olá. _______ Brincar com o fogo, mudar de coração, também de jaula, portanto adiante. Estás sempre a chegar tarde, a chegar-te assim. Prometo não falar de amor, não prometo não mentir. Às vezes digo nada a declarar, como se fosse na alfândega. _______ (Não és tu, quero que já não sejas tu.) O que ___ vejo?, partidas, chegadas, nada anotado, só visto. _____________________ Olá. (Não és tu, ainda bem.)

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30 novembro, 2011

O livro das continuações

# xxxi


A vida é imperfeita, sabe-se isto, mas ao mesmo tempo é imensa, permite eliminar as subtilezas e preservar a vastidão da matéria íntima, as memórias, as esperanças, as dúvidas, as suspeitas, as fugas. Às vezes o fim do romance desperta o sangue, um estímulo demasiado forte que compele a limpar o corpo, para o começar novamente, dar-lhe outros erros e enganos, sem saudade. Tenho dificuldade em ter certezas antecipadamente, recomeço-me sempre assim, pela oportunidade e pela frustração. Estou a tentar.

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16 novembro, 2011

O livro das continuações

# xxx


Começaram a chegar as cartas de outubro sem remetente, deus me valha, não sei o que fazer. Temo que me esteja destinado o que é comum acontecer a quem espera, pouco, uma paixão traiçoeira ou terminal, saudades, outra oportunidade. Não sei, não sei. Às vezes ainda sinto o cheiro dele a escorrer pelas paredes da casa. Sei que é estranho, não o declaro, podem julgar-me doida. O que sou, embora não seja sempre ou sobretudo isso. Agora, por exemplo, apetece-me dançar. E, crazy, toys in the attic, I am crazy (*), vou fazê-lo sem par.

__________
(*) versos de “The trial”, canção do álbum The Wall (Harvest Records - EMI Records, 1979), da banda Pink Floyd.

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02 novembro, 2011

O livro das continuações

# xxix


Quando olho para trás vejo sobretudo a actualidade, a realidade que chega, o júbilo da presença estabelecida como profecia que se projecta para sustentar-se e realizar-se, como se o tempo estivesse comprometido apenas com a perpetuação, com o instante permanente que se acumula e prolonga a identidade própria, à semelhança de qualquer vício. Tento e falho frequentemente neste fio. Depois tento de novo de modo a que o passado não seja a excitação exausta na actualização, os fracassos compreendidos com consequências que subsistem, depois tento de novo de modo a que o passado seja o mistério que anunciou o que estava para acontecer e aconteceu na sequência de si. O rasto, preciso do rasto para orientar-me.

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19 outubro, 2011

O livro das continuações

# xxviii


Se fosse só o cansaço, se não fosse também a memória, este consumo deletério como fim que arrasta e permanece. Como explicar? Estou despida e, simultaneamente um erro e uma lição, contigo ainda escrito em mim. Porquê não me acontece a omissão?

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05 outubro, 2011


O livro das continuações

# xxvii
.

Bem vindo à máquina. Set the controls for the heart. Conheces a canção?, não, pois não?, ela não é para ti. A culpa conquista-se. Incitamento, vacilação, desistência, continuação. Tenho apenas o corpo, não o quero perder ou dar. Às vezes sinto-lhe a falta, falta do alagamento que lhe acontecia, da culpa que através dele conseguia e com a qual me travejava. Não, não penso em ti como pensava, já não. Na verdade o caso não era de pensamento, era de imaginação. Imaginava-te. E, sabes?, quando te imaginava era a mim que encontrava, como se eu fosse uma parede que descobre ser o écran de si. Fui sempre um problema de matéria e de resíduo, nunca consegui substituir-me em qualquer dessas condições. Estou aqui, estás a ver-me aqui, mas estou a continuar. Podes esquecer-me. Viver é criar as condições para continuar a viver.

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06 setembro, 2009


O livro das continuações

# xxvi
.

Toca-me o êxtase de não ser, a exaustão. É excessivo, eu sei, sinto, mas nada quero ou posso fazer a contrário. Sou sem desejos, o deslumbramento de quem não termina e não tem força para continuar a ser o mesmo defeito. Não consigo esquecer-te. O olvido perfeito não me acontece. Quero atender a culpa que consigo, sem a comodidade da remissão pela penitência. Quero que me suceda a alma partida. A continuação é uma sucessão de golpes pequenos. Os ângulos intumescentes ficam para trás. Esqueço a superfície, as arestas. Recordo os combates, o cerco das horas, os falanstérios da normalidade, a rotina. Há momentos em que, assim, o terror vem beijar-me e eu retribuo, com os lábios, a língua, a saliva, a boca toda. Sinto a memória a saque, a esperança a instruir-se como saudade. E eu queria apenas continuar.

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02 agosto, 2009


O livro das continuações

# xxv
.

Imagino o diabo a dançar, a fugir-me do corpo e a levá-lo. Imagino os passos, a performance, imagino-me quase um centauro e a combinar-me somaticamente com o chão. Danço mal, mas na minha imaginação posso e consigo dançar bem. O esforço é pequeno e compensador. Necessito de deslumbrar-me a mim, a mim apenas, ninguém mais. __________ Continuar faz-me consciente do fluxo em que participo. Desvio-me muitas vezes da ausência, uma certa ausência, e persisto na consequência do que sou, partilhando o amanho de condições que não dependem de mim, que não controlo ou sobre as quais tenho um impacto remoto. Não confio nas disposições ou na vontade. Admito contingências, as interiores e as exteriores. Ouço sete diabos, dançam num cabaret, e constato que não tenho numa mão ou num pé o número de dedos suficiente para contar tantos diabos. Imagino o diabo a dançar, imagino sete diabos, uma coreografia para a minha fraqueza. _____ Nunca fiz planos para dominar o mundo, bastou-me sempre a sensação de ser capaz de perder-me no lugar que habito, pelo menos até ao momento em que vingou em mim a precisão de continuar. Provavelmente precisão de continuar a perder-me onde estou, onde posso estar.

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26 julho, 2009


Livrete dos anjos sujos

# xiii
. Carlos Grünwalt descobriu tarde que não era um rapaz como os outros. Cresceu sob protecção da mãe e foi educado em casa. A família contratou uma preletora. Foi com ela que Carlos aprendeu as letras e os algarismos e compôs as primeiras palavras e os primeiros números. Não demorou a conseguir escrever frases e parágrafos e a fazer operações aritméticas. Por não afastar-se demasiado do domicílio, as pessoas que conheceu foram aquelas que oficiavam lá em casa ou a visitavam. Algumas das muitas raparigas chamadas às matinées e aos saraus que aí aconteceram sentiram-se atraídas por ele e seduziram-no. Com uma ou outra criada sucedeu o mesmo, porém com mais recato, por temor à patroa, a mãe dele. Mas, passado algum tempo, não muito, todas o abandonaram. Após convívio breve, um beijo, dois beijos no máximo, elas apercebiam-se que das costas dele emanava um odor semelhante ao de ave de capoeira, que os tempos de estio tornavam mais notório e desagradável. As moças, viçosas e solicitadas pela tentação da rapaziada restante, não toleravam o fedor e afastavam-se. Ele era já homem feito quando conheceu a primeira mulher no leito. Por aos trinta e três anos de idade ser órfão e permanecer casto, o padrinho conduziu-o a um prostíbulo para remediar a situação. Hás-de ir e, derramado de ti, ressuscitar homem finalmente. Ao vê-lo e sabê-lo ali para inauguração tão tardia, os circunstantes riram. O que comoveu uma das meninas da casa, a que o atendeu e serviu. Por ela ter-se excedido em meneio e gentileza, ele apaixonou-se e, depois de alguns regressos para a visitar, ela apaixonou-se por ele ter-se apaixonado por ela e por dar-lhe espórtula abundante. A mãe dele começou por reagir com desagrado e censurou o compadre, que culpou daquela consequência. Passado algum tempo, continuando o desvario dele, ela inclinou-se com relutância e não resignação perante o facto. Mas, após perceber o efeito dela sobre o filho e ter testemunhado a dedicação e o afecto dela a ele, fazendo jus aos pergaminhos liberais da família, concedeu a benção à união matrimonial. Por cuidado maternal, exigiu apenas que, casados, habitassem a ala poente da casa, ao que ele e ela acederam, por desejarem também. A cerimónia foi discreta. E, conta-se, na noite de núpcias ela terá copulado também e pela primeira vez com o sacristão. Sete meses depois ela faleceu e ele descobriu o enredo da traição que não suspeitava. Sendo o marido e o homem legítimo dela, ele não era o único que a frequentava e a quem ela concedia abrigo sobre os lençóis. Na cama ela destapava-se também para outro. Em consequência do trauma, ele suicidou-se e tornou-se célebre por ser o anjo de um poema só, encontrado caligrafado, este, esta força de cair, já não posso mais. sofro
a culpa de ser inocente, de não poder matar-te
como merecias. sofro a culpa de não ter defesa
e de continuar a sofrer-te, como se fosses um electrodoméstico
que já não funciona, que também não tem conserto,
mas que continua sobre a bancada da cozinha,
onde sempre esteve desde que viemos habitar
esta casa.

amanhã hei-de cuspir sobre a tua campa. cuspirei
em vão, porque não sou uma personagem de vian.
pisarei as ervas que não arrancaste, as avencas,
sem preocupar-me se vicejarão ou não. e não serei
o abstémio que nunca fui como tu foste puta
antes e depois de mim. o que sofro mato,
para matar-te definitivamente. como quase sempre,
a minha mãe teve razão à primeira vez. uma puta?,
filho, perguntou ela. não, mãe, deixou de ser e não será
mais, respondi eu o meu engano
.

referência

19 julho, 2009


O livro das continuações

# xxiv
.

Se o meu corpo fosse moderno, não haveria de sofrer a memória e o atraso em que ela me consome. Pelo contrário, haveria de sentir o estilo que o meu corpo suporta, o esquecimento que sou, sem tentar. E depois? _____ Repito a pergunta a cada desmoronamento que observo. Os desmoronamentos são frequentes. Habituei-me às ruínas, mas não à cerveja adamada, própria para os mortos que as ruínas celebram. Estou quase a esquecer Bukowski e Lowry, não a admitir tirar o coração do peito e escondê-lo para me acontecer a imortalidade. O veredicto da continuação não é a imortalidade, é a sobrevivência. _______________ O corpo é um modo de perseguição, isto não esqueço. Se é outro começo, é a mesma culpa, a culpa que me apazigua. Ocupo-me de coisas menores para colher a soberania que posso ter sobre mim. Condição ou processo, sou continuação, quero ser continuação. Não desejo morrer feliz.

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05 julho, 2009


O livro das continuações

# xxiii
.

__________ Hoje estou com pressa, sem vagar para cuidados. Reconquistei a confiança das vozes, consegui abafar o bazar que levantavam em mim. Agora ouço-as com disciplina, como se tivesse uma telefonia instalada na cabeça e pudesse escolher a frequência que desejo ouvir. Julgo que as minhas vozes, minhas porque íntimas, funcionam em frequência modulada e estereofonia. Não tenho a certeza. Não se pode ter a certeza. _____ Apenas os cigarros ainda me interrompem a pressa. Aspiro-os pelo vicío e por acompanharem-me a solidão, sem transtorno ou expectativa. Cumprem-se num holocausto pequeno, para uma morte pequena. Exigem-me posição e pausa, dou-lhas. Sofro-os, sofro-os com vontade, nos lábios, nos dedos, nos pulmões. ____________________ Agora a velocidade é a alma que quero. Nenhuma outra quero. O tempo já não me sobra como antes. Continuar é isto, ganhar a vantagem de perder o que a vida transformou em atraso ou estorvo. Ou respirar fundo, alcatrão e nicotina, para esquecer o que não é possível esquecer. Os artigos da culpa assentam-me melhor assim.

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21 junho, 2009


O livro das continuações

# xxii
.

Sou vulnerável às coisas e ao nome das coisas. Por isso inscrevo-me no corpo e, como repetição, marco-o com sinais que desejo mostrar. Uso-me, sem discrição. Cá dentro, sem os imponderáveis das remessas tardias e da correspondência transviada, creio que a sociedade não muda por exortação. Evito a narrativa dos exemplos e das encomendas, não sou capaz de empolgar-me com isso. Permaneço quem sou, sozinha e habitada. Porque o calor das tardes voltou, tento esconder-me no chão e padecer aí, como os animais. Esfrego-me no soalho e demoro-me em contacto com a pele, a refrescar, a assumir a culpa, sem necessitar de esboçar sentimentos que não tenho. Canso-me da morte, não consigo gostar de cemitérios. A mágoa não me aflige, articulo-a em devesas, às vezes em palavras, nunca em abismo com fundo demasiado profundo. Prefiro o mal à vista, a dor domiciliada em vez de perdida ou sem paradeiro. Prefiro a superfície, a ferida ou a fractura exposta, o que não está oculto nas coisas ou no nome das coisas. Com frequência engano-me nas sequências. Há muito tempo que deixei de memorizar números de telefone. Já esqueci o teu. Agora, se quisesse falar contigo, teria que consultar a agenda. O calor não me permite tal vontade, é terapêutico. Admito a espera, o que no caso é um modo de continuação. Longe de ti sinto-me justa. E sem desejo ou necessidade de regressar. A hemorragia interna foi estancada. O período de convalescença terminou. Mudei de vícios.

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07 junho, 2009


O livro das continuações

# xxi
.

As vozes endoidecem-me. Tenho consciência de que me repito. Os sonâmbulos têm mãos também. Esta associação, vozes e mãos de sonâmbulos, é livre. Talvez seja uma perseguição. Admito que sim, a conjectura é plausível. _____ As coisas dividem-me. Prendo-me a elas para as disputar e separar-me mais de mim. A inveja é apenas mais um ângulo da minha presença. __________ Continuar é uma maneira de cair. Agora vivo em queda livre e magoada, sem outra vez. Tenho os lábios esquecidos no medo, um beijo pronunciado neles como rumor ou murmúrio. Nenhuma palavra, nenhum gesto. Os amantes amam devagar, com culpa, são assim. _____ Às vezes desejo esconder o corpo - escondê-lo, mais do que recolhê-lo -, fazê-lo passe-partout da ausência que tento. _______________ Deixei de fazer o casting cardíaco do costume. Agora obedeço ao impulso, entrego-me para partir. Do abandono ao resgate, o movimento da identidade pelo qual sou é o afastamento. A ausência faz parte do meu processo de reflexão e inflação. Tenho as mãos moídas de tanto agarrar-me. A tua forma desvaneceu-se delas, encheram-se de liberdade, incêndio e horto também. O modo como as integro no meu corpo, sem o louvor da falta, é a consequência mais evidente disso. Sofro a sensação de pertencer às paredes, como se o que é permanência em mim fosse a minha identidade e não um desvio. É esta intimidade com a matéria que me funde na necessidade. _____ Sigo o perfil irregular dos frutos, acompanho-me. A poesia não é saída ou entrada, é um caminho. Eu prolongo-me por trajectos diferentes, em manobras de perda e distância. Apesar de ser verdade, digo isto como se fosse verdade. Afasto-me, dobro-me no exílio. Puxo o corpo mais para mim, para fechar as vozes. Mas continuo apenas. Sou a morada das vozes. Continuo.

referência

2006/2017 - Eliz B. (danada composta e padecida por © Sérgio Faria).