06 Setembro, 2009
O livro das continuações
# xxvi.
Toca-me o êxtase de não ser, a exaustão. É excessivo, eu sei, sinto, mas nada quero ou posso fazer a contrário. Sou sem desejos, o deslumbramento de quem não termina e não tem força para continuar a ser o mesmo defeito. Não consigo esquecer-te. O olvido perfeito não me acontece. Quero atender a culpa que consigo, sem a comodidade da remissão pela penitência. Quero que me suceda a alma partida. A continuação é uma sucessão de golpes pequenos. Os ângulos intumescentes ficam para trás. Esqueço a superfície, as arestas. Recordo os combates, o cerco das horas, os falanstérios da normalidade, a rotina. Há momentos em que, assim, o terror vem beijar-me e eu retribuo, com os lábios, a língua, a saliva, a boca toda. Sinto a memória a saque, a esperança a instruir-se como saudade. E eu queria apenas continuar.
02 Agosto, 2009
O livro das continuações
# xxv.
Imagino o diabo a dançar, a fugir-me do corpo e a levá-lo. Imagino os passos, a performance, imagino-me quase um centauro e a combinar-me somaticamente com o chão. Danço mal, mas na minha imaginação posso e consigo dançar bem. O esforço é pequeno e compensador. Necessito de deslumbrar-me a mim, a mim apenas, ninguém mais. __________ Continuar faz-me consciente do fluxo em que participo. Desvio-me muitas vezes da ausência, uma certa ausência, e persisto na consequência do que sou, partilhando o amanho de condições que não dependem de mim, que não controlo ou sobre as quais tenho um impacto remoto. Não confio nas disposições ou na vontade. Admito contingências, as interiores e as exteriores. Ouço sete diabos, dançam num cabaret, e constato que não tenho numa mão ou num pé o número de dedos suficiente para contar tantos diabos. Imagino o diabo a dançar, imagino sete diabos, uma coreografia para a minha fraqueza. _____ Nunca fiz planos para dominar o mundo, bastou-me sempre a sensação de ser capaz de perder-me no lugar que habito, pelo menos até ao momento em que vingou em mim a precisão de continuar. Provavelmente precisão de continuar a perder-me onde estou, onde posso estar.
26 Julho, 2009
Livrete dos anjos sujos
# xiii. Carlos Grünwalt descobriu tarde que não era um rapaz como os outros. Cresceu sob protecção da mãe e foi educado em casa. A família contratou uma preletora. Foi com ela que Carlos aprendeu as letras e os algarismos e compôs as primeiras palavras e os primeiros números. Não demorou a conseguir escrever frases e parágrafos e a fazer operações aritméticas. Por não afastar-se demasiado do domicílio, as pessoas que conheceu foram aquelas que oficiavam lá em casa ou a visitavam. Algumas das muitas raparigas chamadas às matinées e aos saraus que aí aconteceram sentiram-se atraídas por ele e seduziram-no. Com uma ou outra criada sucedeu o mesmo, porém com mais recato, por temor à patroa, a mãe dele. Mas, passado algum tempo, não muito, todas o abandonaram. Após convívio breve, um beijo, dois beijos no máximo, elas apercebiam-se que das costas dele emanava um odor semelhante ao de ave de capoeira, que os tempos de estio tornavam mais notório e desagradável. As moças, viçosas e solicitadas pela tentação da rapaziada restante, não toleravam o fedor e afastavam-se. Ele era já homem feito quando conheceu a primeira mulher no leito. Por aos trinta e três anos de idade ser órfão e permanecer casto, o padrinho conduziu-o a um prostíbulo para remediar a situação. Hás-de ir e, derramado de ti, ressuscitar homem finalmente. Ao vê-lo e sabê-lo ali para inauguração tão tardia, os circunstantes riram. O que comoveu uma das meninas da casa, a que o atendeu e serviu. Por ela ter-se excedido em meneio e gentileza, ele apaixonou-se e, depois de alguns regressos para a visitar, ela apaixonou-se por ele ter-se apaixonado por ela e por dar-lhe espórtula abundante. A mãe dele começou por reagir com desagrado e censurou o compadre, que culpou daquela consequência. Passado algum tempo, continuando o desvario dele, ela inclinou-se com relutância e não resignação perante o facto. Mas, após perceber o efeito dela sobre o filho e ter testemunhado a dedicação e o afecto dela a ele, fazendo jus aos pergaminhos liberais da família, concedeu a benção à união matrimonial. Por cuidado maternal, exigiu apenas que, casados, habitassem a ala poente da casa, ao que ele e ela acederam, por desejarem também. A cerimónia foi discreta. E, conta-se, na noite de núpcias ela terá copulado também e pela primeira vez com o sacristão. Sete meses depois ela faleceu e ele descobriu o enredo da traição que não suspeitava. Sendo o marido e o homem legítimo dela, ele não era o único que a frequentava e a quem ela concedia abrigo sobre os lençóis. Na cama ela destapava-se também para outro. Em consequência do trauma, ele suicidou-se e tornou-se célebre por ser o anjo de um poema só, encontrado caligrafado, este, esta força de cair, já não posso mais. sofro
a culpa de ser inocente, de não poder matar-te
como merecias. sofro a culpa de não ter defesa
e de continuar a sofrer-te, como se fosses um electrodoméstico
que já não funciona, que também não tem conserto,
mas que continua sobre a bancada da cozinha,
onde sempre esteve desde que viemos habitar
esta casa.
amanhã hei-de cuspir sobre a tua campa. cuspirei
em vão, porque não sou uma personagem de vian.
pisarei as ervas que não arrancaste, as avencas,
sem preocupar-me se vicejarão ou não. e não serei
o abstémio que nunca fui como tu foste puta
antes e depois de mim. o que sofro mato,
para matar-te definitivamente. como quase sempre,
a minha mãe teve razão à primeira vez. uma puta?,
filho, perguntou ela. não, mãe, deixou de ser e não será
mais, respondi eu o meu engano.
19 Julho, 2009
O livro das continuações
# xxiv.
Se o meu corpo fosse moderno, não haveria de sofrer a memória e o atraso em que ela me consome. Pelo contrário, haveria de sentir o estilo que o meu corpo suporta, o esquecimento que sou, sem tentar. E depois? _____ Repito a pergunta a cada desmoronamento que observo. Os desmoronamentos são frequentes. Habituei-me às ruínas, mas não à cerveja adamada, própria para os mortos que as ruínas celebram. Estou quase a esquecer Bukowski e Lowry, não a admitir tirar o coração do peito e escondê-lo para me acontecer a imortalidade. O veredicto da continuação não é a imortalidade, é a sobrevivência. _______________ O corpo é um modo de perseguição, isto não esqueço. Se é outro começo, é a mesma culpa, a culpa que me apazigua. Ocupo-me de coisas menores para colher a soberania que posso ter sobre mim. Condição ou processo, sou continuação, quero ser continuação. Não desejo morrer feliz.
05 Julho, 2009
O livro das continuações
# xxiii.
__________ Hoje estou com pressa, sem vagar para cuidados. Reconquistei a confiança das vozes, consegui abafar o bazar que levantavam em mim. Agora ouço-as com disciplina, como se tivesse uma telefonia instalada na cabeça e pudesse escolher a frequência que desejo ouvir. Julgo que as minhas vozes, minhas porque íntimas, funcionam em frequência modulada e estereofonia. Não tenho a certeza. Não se pode ter a certeza. _____ Apenas os cigarros ainda me interrompem a pressa. Aspiro-os pelo vicío e por acompanharem-me a solidão, sem transtorno ou expectativa. Cumprem-se num holocausto pequeno, para uma morte pequena. Exigem-me posição e pausa, dou-lhas. Sofro-os, sofro-os com vontade, nos lábios, nos dedos, nos pulmões. ____________________ Agora a velocidade é a alma que quero. Nenhuma outra quero. O tempo já não me sobra como antes. Continuar é isto, ganhar a vantagem de perder o que a vida transformou em atraso ou estorvo. Ou respirar fundo, alcatrão e nicotina, para esquecer o que não é possível esquecer. Os artigos da culpa assentam-me melhor assim.
21 Junho, 2009
O livro das continuações
# xxii.
Sou vulnerável às coisas e ao nome das coisas. Por isso inscrevo-me no corpo e, como repetição, marco-o com sinais que desejo mostrar. Uso-me, sem discrição. Cá dentro, sem os imponderáveis das remessas tardias e da correspondência transviada, creio que a sociedade não muda por exortação. Evito a narrativa dos exemplos e das encomendas, não sou capaz de empolgar-me com isso. Permaneço quem sou, sozinha e habitada. Porque o calor das tardes voltou, tento esconder-me no chão e padecer aí, como os animais. Esfrego-me no soalho e demoro-me em contacto com a pele, a refrescar, a assumir a culpa, sem necessitar de esboçar sentimentos que não tenho. Canso-me da morte, não consigo gostar de cemitérios. A mágoa não me aflige, articulo-a em devesas, às vezes em palavras, nunca em abismo com fundo demasiado profundo. Prefiro o mal à vista, a dor domiciliada em vez de perdida ou sem paradeiro. Prefiro a superfície, a ferida ou a fractura exposta, o que não está oculto nas coisas ou no nome das coisas. Com frequência engano-me nas sequências. Há muito tempo que deixei de memorizar números de telefone. Já esqueci o teu. Agora, se quisesse falar contigo, teria que consultar a agenda. O calor não me permite tal vontade, é terapêutico. Admito a espera, o que no caso é um modo de continuação. Longe de ti sinto-me justa. E sem desejo ou necessidade de regressar. A hemorragia interna foi estancada. O período de convalescença terminou. Mudei de vícios.
07 Junho, 2009
O livro das continuações
# xxi.
As vozes endoidecem-me. Tenho consciência de que me repito. Os sonâmbulos têm mãos também. Esta associação, vozes e mãos de sonâmbulos, é livre. Talvez seja uma perseguição. Admito que sim, a conjectura é plausível. _____ As coisas dividem-me. Prendo-me a elas para as disputar e separar-me mais de mim. A inveja é apenas mais um ângulo da minha presença. __________ Continuar é uma maneira de cair. Agora vivo em queda livre e magoada, sem outra vez. Tenho os lábios esquecidos no medo, um beijo pronunciado neles como rumor ou murmúrio. Nenhuma palavra, nenhum gesto. Os amantes amam devagar, com culpa, são assim. _____ Às vezes desejo esconder o corpo - escondê-lo, mais do que recolhê-lo -, fazê-lo passe-partout da ausência que tento. _______________ Deixei de fazer o casting cardíaco do costume. Agora obedeço ao impulso, entrego-me para partir. Do abandono ao resgate, o movimento da identidade pelo qual sou é o afastamento. A ausência faz parte do meu processo de reflexão e inflação. Tenho as mãos moídas de tanto agarrar-me. A tua forma desvaneceu-se delas, encheram-se de liberdade, incêndio e horto também. O modo como as integro no meu corpo, sem o louvor da falta, é a consequência mais evidente disso. Sofro a sensação de pertencer às paredes, como se o que é permanência em mim fosse a minha identidade e não um desvio. É esta intimidade com a matéria que me funde na necessidade. _____ Sigo o perfil irregular dos frutos, acompanho-me. A poesia não é saída ou entrada, é um caminho. Eu prolongo-me por trajectos diferentes, em manobras de perda e distância. Apesar de ser verdade, digo isto como se fosse verdade. Afasto-me, dobro-me no exílio. Puxo o corpo mais para mim, para fechar as vozes. Mas continuo apenas. Sou a morada das vozes. Continuo.
24 Maio, 2009
O livro das continuações
# xx.
Tenho que concentrar-me, arrumar a cabeça. O vício da morte persegue-me novamente. Estou para a indolência dos gatos, as manhãs e as tardes, capaz de demorar e esperar o corpo agora, de modo a que seja um momento eterno, que há-de acabar, mas que se sente infinito, para além do tempo estrito, as horas, as dobras, a sequência longa pela qual me faço presente e entrego a mim. _______________ Pensava que estava preparada para tudo, não estava. Atrelada a um universo de silêncios que crescia à medida que eu perdia a recuperação e a repetia em vão, tornei-me principiante. I’m an absolute beginner.* O que já não tenho é a inocência do princípio. Afastei-me dos sinais. Deixei de mandar postais. _____ A ressaca é quase perfeita, entranha a tristeza no meu corpo, domina as minhas mãos. Como represália, faz-me cair inteira, embora não necessariamente íntegra. É demasiado vago ou nada o que amortece a minha queda. Comungo o chão. _______________ Tudo está bem quando alguém sente que está com o tempo que lhe pertence. Comigo é diferente. Excedo a oportunidade, a vantagem marginal de quem termina. Tenho o coração calafetado, a sístoles certas e equívocas. Segredo nenhum tenho para revelar. Pretendo apenas continuar. A solidão, talvez o que é mais preciso em mim, convoca-me para a continuação. Não cedo a acasos. É o que quero.
__________
* verso da canção “Absolute beginners” (in Absolute Beginners, Virgin Records, 1986), de David Bowie.
10 Maio, 2009
O livro das continuações
# xix.
Sou o corpo imprimido no lugar da perda dele. Já não falo da hipótese da abundância, dos tempos que confluem na oportunidade. Esqueci, quero esquecer, embora não esquecer absolutamente. Na verdade não quero esquecer, quero apenas não sentir-me obrigada à presença. Da liberdade? Solto-me, não nasci solta. __________ A contracção do nome. O silêncio desenhado subitamente. _____ Sinto o corpo a convocar-me para a dissidência, para a sobra do combate. Já não se podem fazer substituições, foram esgotadas durante o tempo regulamentar da luta. A luta continua. Agora é o período dos descontos, a compensação. A luta continua. Habituo-me ao chão. Sou moça de bataclan e sozinha, não sou rapariga de bondage sindical, de palavras de ordem e marchas pelo serviço e pelas causas do serviço. As combinações fazem-me mal. _______ Atiro-me para o chão, para o contacto e para o contrato, para a identidade. Perdi a identificação, não o trabalho. No corpo desanimado, no que cai e em que vou, sou dona de casa, sou dona de mim, senhora das vozes pronunciadas de nada, vozes que ouço. O chão é a condição do meu regresso, talvez até porque regresso. Agora o chão é a minha habitação. O que quero? Quero apenas continuar, ser sedição. A solidão não me basta.
26 Abril, 2009
O livro das continuações
# xviii
O poder que os quietos têm para vencer a memória faz-me sentir impotente. Sou crescentemente recordações e por elas, incapaz de esquecer. Isto habita-me com a mesma improbabilidade da comunicação e do amor. Não troco a proposição de Luhmann pelo uso do twitter. Não tenho urgências na puta da vida. É muito o que me espera para que, como sorte escrita, eu possa lembrar com vagar o que já esperei. Sou continuando a ser, isto sei. No entanto não sei se, sendo, sou continuação ou sou substituição. ____________________ Conheço um desvio que pode levar-me mais longe. Esse desvio és tu. Começo a crer que foste a desculpa melhor que tive para afastar-me de ti e de mim, sem regressar. Às vezes ainda me sinto perdida, ainda faço gestos que não têm destinatário. Sou capaz de perder-me mesmo diante do espelho, consumida na e pela evidência do reflexo de que sou simultaneamente motivo e testemunha. Acrescento-me ainda com a soberania de que, desde o meu - não o nosso - afastamento, não prescindo. Às vezes ouço vozes, sabes? Sou a senhora delas, a habitação de que precisam.
12 Abril, 2009
O livro das continuações
# xvii
Vozes demasiadas são trovoada. Levanto-me como se só eu pudesse acordar e fosse imperioso fazê-lo. _____ Coisa estranha, agora tenho na cabeça, sinto-os, aqueles efeitos de distorção grossa dos retratos de Lucian Freud. Bem, bem vistas as coisas, não há distorção, há representação. É isso, a representação, o que mais aprecio também no traço preto de Hugo Pratt, nas figuras de Corto Maltese. Parecem vivas, vivas como nós, embora sejam desenhos, desenhos em prancha, em páginas para passar e virar. Às vezes gosto de sonhar acordada, de envolver-me com as personagens de uma aventura do veneziano, de estar ao lado delas, de estar com elas. Qualquer pessoa deve poder viver dentro de uma banda desenhada. Pelo menos algum tempo, não tem de ser a vida inteira. Viver dentro de uma banda desenhada não é uma expressão minha. Repito-a apenas. Ouvi-a ou li-a por aí, não sei onde. Facto que está a inquietar-me. Tenho a obsessão do rigor. Que não é o mesmo que a obsessão da perfeição. O rigor remete para o processo, a perfeição remete para o resultado. Pode atingir-se a perfeição sem rigor, do mesmo modo que com rigor pode atingir-se a imperfeição. Mas, de um modo ou de outro, são maneiras de permitir a continuação, o afastamento, o ritmo. É por aí que vou.
29 Março, 2009
O livro das continuações
# xvi
Apesar de toda a sinceridade que tento, agora tenho medo de dizer que ouço vozes. Se o dissesse, pensariam que sou ou estou doida, olhariam para mim como alguém que precisa de arranjo. Não preciso. A loucura é outra coisa. Sofro apenas uma espécie de iluminação nocturna a que já me habituei e à qual chamo inquietude. __________ Ouvir vozes pode ser entendido como efeito de uma perturbação, sei. Mas ouvir vozes não é pior do que escutar o eco da solidão. Para além disto, gosto de sentir a minha solidão povoada, agrada-me sentir o corpo a estremecer devido às vozes que ouço. Creio que, mais do que uma agitação, algo estranho, tal é um modo de me despertar, é uma prova de que estou viva. É verdade que, às vezes, ao mesmo tempo que ouço as vozes, sinto que está a chover dentro de casa. No entanto não saio de casa. Sair, mormente sair por estar a chover dentro de casa, seria tentar fugir de mim, desencarcerar-me da identidade em que estou conjugada, afastar-me do espaço a que, pela habitação, pertenço. Não renuncio ao que sou, não tenho necessidade de procurar-me em objectos diferentes, em reflexos ou nas sombras da rua. Não estou perdida ou dissoluta, ouço vozes, apenas isso. Pelo que, caso sinta precisão de procurar-me, sei que, na hipótese mais tardia, haverei de encontrar-me através do choque com as paredes da minha casa. É aí, dentro, que procurarei um modo de evitar a chuva que cai sobre mim. Porque não admito e não quero admitir que a chuva lave as vozes que ouço. A loucura é outra coisa, não ter nexo.
15 Março, 2009
O livro das continuações
# xv
A loucura é outra coisa, não ter nexo. Não é isto o que me acontece muitas vezes, cada vez mais, em consequência do enredo da tua ausência. Porque exijo a sinceridade também para mim, vou ser sincera contigo. Ocasionalmente és o sopro que, com a distância, me quieta as mãos. Sopro, só isso, não és matéria, algo com densidade e presença. Funcionas assim, vago. Se detenho as minhas mãos, sobretudo a mão direita, no vício do tabaco é para que, comigo embargada pelo consolo da nicotina, os andaimes que escoram o vazio feito por ti no esgoto do meu peito não me magoem. Aspiro o mal incensado na mortalha como penitência. A loucura é outra coisa, repito. _______________ Histerese é o que sofro, mal que, com a sua demora, o tempo há-de curar. A minha distância a ti é um exercício livre. Sofro-a sem tormenta e sem paixão, como acontecimento. É semelhante à fuligem primaveril, aos primeiros dias de calor morno, interrompidos pela morte da tarde. Algo que acontece porque tem de acontecer. __________ Digo-te ainda que sinto-me suja e compreendo a dúvida do que sinto. Pela metamorfose da distância a ti, cresceram-me asas. Agora sou um insecto, talvez uma mariposa, sou um pássaro, sou ninguém. Por causa do sexo, não posso ser anjo. Não me incomoda. A impossibilidade disso combina com a minha vontade. Sabes?, não quero voar, quero continuar.
01 Março, 2009
O livro das continuações
# xiv
Estou na dobra dos dias, entregue à demora que posso observar desde esta janela. Os sinais, mesmo os sinais pequenos, não chegam aqui. Há algo no universo, uma força, uma função, uma vontade, não sei o quê, que me adia para tarde, que me pede mais horas, que me obriga a esperar, como se eu pudesse continuar à espera dos sinais que não chegam. Não, não posso. Sinto a pressa dos lavores, não a posso trair. Nunca quis ser como tu, nunca. Faço as coisas mais devagar. Às vezes demoro à janela, a espreitar a luz a desfiar-se em tempo, só isso. Porque assim, pelos farrapos de tempo que espreito, quieta, consigo afastar-me de ti, da tua circumpresença, e continuar mais certa, sozinha.
01 Fevereiro, 2009
O livro das continuações
# xiii
Depois, para os que dizem o advérbio e o suportam, é suficiente mudar o tempo do verbo. A vida continua, a vida continuará.
16 Novembro, 2008
Caderno de exercícios
O exercício da encomenda
Há momentos em que observa o seu redor. Tem a sensação que, ao fazê-lo, o mundo se suspende e adquire uma nitidez que, sob o regime dos actos, sob a vertigem dos estados comuns, não é possível perceber. Aceita por certeza a existência de uma ordem que só se revela mediante quietude, quando nenhum gesto contamina ou produz interferência sobre essa mesma ordem. Não é capaz de explicar de onde proveio este seu modo de inclinação ao mundo. Já admitiu a sua interrupção. Não obstante, nunca a tentou e o modo persistiu, como um dispositivo alojado em si. Julga que assim acontece por, enquanto plataforma, a distância a que vive permitir-lhe operar um discernimento que não é frequente nos auditórios. Já ensaiou o mesmo exercício na rua ou na presença de outros, porém não surtiu efeito semelhante ou sequer aproximado. Para além disso, a projecção a que o exercício obriga também necessita de resguardo. E a uma maior aproximação ou intimidade tende a corresponder cegueira. Quanto a isso, no entanto, ela imprime uma obstinação de carpinteiro, não dispensando o tacto. A miragem tem limites.
09 Novembro, 2008
Caderno de exercícios
O exercício da obsessão
A par do gelo, o espelho é o maior enigma da natureza e dos arredores. Mais misterioso do que o espelho é o reflexo, o negativo, que alguém procura no próprio espelho. Durante muitos anos ela limitou-se a olhar o espelho com utilidade, para, por exemplo, compor o cabelo ou aplicar o blush. No entanto, aconteceu, um dia a imagem que o espelho lhe devolvia pareceu-lhe com integridade excessiva, falsa. Por sortilégio, o espelho precipitou-se sobre o chão e estilhaçou-se. De pé, começou por contemplar aquela decomposição improvisada pelo acaso. Depois, debruçada, procurou-se nas diversas parcelas do espelho partido, como se em cada pedaço houvesse a impressão de uma parte de si. Ficou demoradamente a tentar reconstruir-se naquele puzzle de imagens repetidas consoante o talho dos estilhaços. Não disfarçou a avidez emprestada à procura de si. Mas uma espécie de prestidigitação impediu-a de ver-se destroçada naquele chão. Conformou-se. A fome tem limites.
02 Novembro, 2008
Caderno de exercícios
O exercício do desperdício
Durante muitos anos, enquanto preparava o pão e o vinho sobre a mesa, pronunciou a oração que conhecia desde idade tenra. Ao princípio por hábito, depois por devoção, repetia as palavras em voz para, por esse exercício, ouvindo-se, confirmar a fé que já começava a exaurir-se dentro de si. Não recorda o dia em que pela primeira vez calou a prece. Tão pouco recorda o motivo por que alterou o seu comportamento. Apenas tem memória do tempo em que, enquanto preparava o pão e o vinho sobre a mesa, rezava. E tem essa memória não porque tenha lembrança das palavras do enunciado da graça, do encadeamento e do ritmo dessas palavras, mas porque, recorda, então sobre a mesa havia sustento sob as formas de corpo e de sangue. Hoje, porém, já não é capaz de imaginar tais formas. É assim desde o dia em que entornou o cálice e guardou-se a observar o vinho derramado a estender-se até ao limite da mesa, desde onde pingava, prolongando-se a mácula sobre o soalho. A fé tem limites.
03 Agosto, 2008
Livrete dos anjos sujos
# xii. As mulheres têm direito às lágrimas, mas não é por isso que eu choro, disse ele a um circunstante, que, percebendo-o homem e perplexo por isso, afastou-se rapidamente, para não ser incomodado por quem considerou louco. De facto, Rodolfo Hoffmann padecia de síncopes recorrentes e, consequência disso, desorientação identitária. Mas o problema não era apenas ele não saber quem era, era também os outros darem-lhe sinais contraditórios sobre si. Se havia quem não estranhasse a sua personalidade e não suspeitasse o chumaço das asas que lhe enchia as costas, tratando-o como a outra pessoa qualquer, havia quem e não raro o olhasse de soslaio e evitasse, por ele ser uma criatura bizarra. Daí que, para acautelar a sorte das suas interacções, para além de pronunciar o nome, chamo-me Rodolfo Hoffmann, rótulo que, por parecer-lhe demasiado contingente e esquisito, considerava não ser suficiente para garantir a sua identificação, ele anunciasse aos outros as suas ocupações profissionais, e dedico-me a ofícios prosaicos, catering e circuncisões, de modo a que, pela apresentação de tal distinção, fosse reconhecida a sua normalidade. Porém a cadência das síncopes de Rodolfo Hoffmann continuou e, como os outros - para quem passou a ser o anjo ou o gajo sincopado, consoante o soubessem ou não soubessem anjo -, ele continuou a não saber quem era.
02 Agosto, 2008
O livro das continuações
# xii
Sou do equinócio outonal, da falência de setembro e depois, quando o tempo torna áspero. O verão é uma demora que sofro, não sou seu resort. Imagino o centeio quebrado, as sombras a nascerem nas searas e nas casas caiadas de branco. Sinto o calor a apertar-me a respiração, a quietar-me. Talvez seja sob a luz do estio que mais revelo a fuga em que me consumo. No verão recuo até recolher-me dentro de mim, onde descubro começarem as vertigens. À noite é diferente, mas as noites de verão não são autênticas. Durante o verão não se diz acentuado arrefecimento nocturno, o regime é distinto. Os cheiros são mais soltos, vagam devagar, como se perpetuassem o tempo, produzindo um efeito semelhante ao cigarro com que me acompanho. Não sei, é estranho. O verão faz-me andar lentamente e voltar para trás, para o abrigo telúrico das tardes. O que faço?, espero o outono, o meu ofício. Espero-o sozinha, para a insídia ser perfeita, a continuação.
2006/2009 - Eliz B. (danada composta e padecida por © Sérgio Faria).
